A primeira e maior desbravadora das Redes de Computadores no Brasil.

Tenacidade, espírito inovador e desbravador, persistência e curiosidade ilimitada, são algumas das qualidades de Liane Margarida Rockenbach Tarouco, que podemos chamar carinhosamente de Dinossauro Digital.

Atualmente, é Vice-Diretora do CINTED (Centro Interdisciplinar de Novas Tecnologias na Educação da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul); e atua junto ao programa de Pós Graduação de Ciência da Computação, como professora, pesquisadora e orientadora, principalmente na área de Gerência e Segurança de Redes.

O CINTED é uma área multidisciplinar, que investiga o uso de redes como suporte à educação. Criado devido à necessidade de uma abordagem diferenciada, multidisciplinar na aplicação da Informática na Educação, “Professores da Informática, Psicologia e Educação se uniram para criar o Doutorado Informática na Educação, em 1996; e, em 2000 foi criado o centro para dar suporte a esse doutorado.”, diz Liane.

Hoje o centro conta, também, com a presença de professores da Engenharia e Artes junto à equipe que estuda as formas mais avançadas da TI, a serem aplicadas na Educação, o que é conhecido por learningware.

Graduação em Física pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), Mestrado em Ciência da Computação e Pós Graduação em Engenharia Civil-Estruturas pela UFRGS, Doutorado Engenharia Elétrica – Sistemas Digitais, focalizado em Redes de Computadores pela USP (Universidade de São Paulo).

Sua formação começou na Física, pois na época não existia curso de computação, durante a graduação, foi bolsista de grupos de pesquisa e trabalhava no DMAE (Departamento Municipal de Água e Esgoto); onde foi uma das pessoas selecionadas para fazer o curso de programação, quando o DMAE preparava-se para comprar seu primeiro computador.

Liane se apaixonou por programação; desde mocinha, sonhava em trabalhar na NASA (National Aeronautics and Space Administration), quando entendeu que poderia estudar programação aqui, percebeu que não precisaria morar nos EUA para descobrir novos rumos e trabalhar com tecnologia de ponta, para sorte dos gaúchos e brasileiros, decidiu ficar por aqui.

Ela é, sem dúvida, responsável por escrever parte da história da tecnologia em nosso País, quem estudava Computação, Informática, ou Processamento de Dados em meados dos anos 80, conhece bem seu trabalho; para quem não sabe, o primeiro livro de redes de computadores do Brasil, foi escrito por ela em 1977.

Liane percorreu um longo caminho até se transformar em um dos maiores nomes de referência em sua área, seus primeiros cursos foram em meados de 1967, atuou como professora de graduação da UFRGS, e demorou mais do que esperava para atuar em um cargo de chefia.

“Eu tinha um fogo interior, queria fazer coisas diferentes, inovar, quando ninguém falava ainda em ensino por terminais eu já estava fazendo um projeto aqui na Universidade para o Reitor comprar terminais, montar uma sala e experimentar com alunos sentando nos terminais para aprender, foi em 1980.”, conta entusiasmada.

O primeiro microcomputador da UFRGS foi Liane quem trouxe, recém comprado da Polymax; foi  um dos primeiros saídos da fábrica nacional. “Anteriormente já havia experimentado modelos domésticos  como o Color Computer e até mesmo um laptop TRS-80 modelo 100 comprado na Radio Shack. Meu primeiro computador nacional, eu trouxe para a Universidade, foi o primeiro micro que entrou na Universidade, que até então, trabalhava com computadores de grande porte.”, lembra com alegria e seus olhos brilham com emoção.

Sua preferência é estar na área da pesquisa, onde pode experimentar, sonhar e concretizar novas idéias; entende que também é importante atuar em cargos de chefia para poder realizar seus projetos de pesquisa.

Liane já atuou como Diretora de Operações no Centro de Supercomputação, Coordenadora da Pós Graduação de Informática na Educação, Diretora do CINTED: “Minha carreira acadêmica foi sempre oscilando, alguns períodos, como professora, outros, em cargos de chefia.”.

“Nesta área, procuramos avaliar a utilização de TI, como recurso para melhorar a qualidade da Educação.”, explica sobre o cargo que ocupa no CINTED.

“Nas duas áreas, é uma investigação de novas maneiras de usar a tecnologia da informação para que, de um lado a infraestrutura funcione bem, no caso da rede; e de outro lado, fazer com que a educação tenha melhor qualidade em função do suporte que a tecnologia da informação pode prover.”, explica sobre os cargos que ocupa.

Liane ressalta que a geração dos “nativos digitais” tem imensa facilidade para lidar com a tecnologia: “São motivados pela tecnologia, por outro lado, eles não têm o hábito da leitura, base para desenvolver raciocínio lógico, pensamento crítico; é outra forma de pensar… como combinar essa nova aptidão, para que eles se tornem aptos em todas as áreas, não só em apertar botões… é um desafio bastante fascinante.”, fala com seu sorriso simpático, de quem já está pensando em como descobrir mais novidades.

Dicas para chegar lá

“O importante é ter essa curiosidade nunca satisfeita. Uma vez eu li uma frase, atribuem a Einstein, quando alguém não tiver mais curiosidade, está morto e não sabe.”, diz Liane.

Para ela, um pesquisador tem que ter uma curiosidade incessante, querer saber o porquê, o que  e como aconteceu cada fato.

“Tem que estar sempre atento, pois tem sempre uma novidade passando e, já é preciso sair atrás, investigar porque aqui é um ambiente de pesquisa, a gente pode se dar ao luxo de experimentar, de tentar, e se não der certo: que maravilha, porque se aprende mais no erro do que nos acertos, o erro nos faz explorar outras alternativas.”, observa.

Uma frase que Liane Tarouco disse ficará famosa: “O erro é brilhante, porque faz avançar o conhecimento.”.

“Tem que ter essa capacidade, essa vontade de desbravar, experimentar, ousar, ler muito, procurar avançar a fronteira do conhecimento. Depois, avaliar como aquilo pode beneficiar o nosso público alvo direto, que na universidade são os alunos, são as pesquisas e às vezes ocorre também uma derivação, que a gente pode levar para a empresa.”, continua fascinada.

Para ela, é importante poder testar no mundo empresarial as descobertas do mundo da pesquisa, “Não adianta só uma idéia, se ela não é testada na prática, com usuários reais.”, enfatiza.

Liane considera que o mais importante na área de pesquisa em uma Universidade, é a curiosidade incessante e o experimento; depois, as inovações descobertas poderão ser absorvidas pelo mercado empresarial. Já na área administrativa, é necessária muita perspicácia em relação à burocracia, conhecimento de leis e regulamentações, pois tudo é muito dinâmico.

Sobre a SUCESU

“Na época a SUCESU tinha uma função social e também de capacitação de recursos humanos. Assumi duas gestões na Diretoria de Recursos Humanos, organizando eventos, principalmente na área de redes, a Telemática… A SUCESU era uma organização não puramente empresarial, era também acadêmica, era o grande centro mobilizador de conhecimento no Brasil como um todo.”, relata.

“O Congresso Nacional da SUCESU era o maior evento no País, havia prêmios para os melhores trabalhos; nas feiras, estandes para as Universidades. Era o cenário mais importante para qualquer pessoa que quisesse aprender, se desenvolver e mostrar seu desenvolvimento, tanto no plano empresarial, que era o mais forte da SUCESU, como no plano acadêmico também.”, completa saudosa.

Liane trabalhou muito pela SUCESU, fez parte do grupo que impulsionou a unidade do Rio Grande do Sul, proporcionando condições de desenvolvimento para a comunidade gaúcha de TI. No aniversário de quarenta anos da SUCESU Nacional, ela foi escolhida, como a personalidade mais importante da Informática das últimas quatro décadas.

Nesse evento, ela também recebeu o prêmio da década 1976-1985, pela publicação do primeiro livro de Redes de Comunicação de Dados do Brasil. Fez história ou não fez? Certamente que sim!

Sobre a presença da mulher no mercado de TI

No início de sua carreira havia poucas mulheres, principalmente em congressos; em redes, eram apenas duas, ela e uma carioca, “Lembro uma vez que fui a um congresso na África do Sul em que o coordenador abriu o congresso dizendo, gentleman and four ladies.”, fala rindo muito.

A SUCESU indicou Liane como representante do Brasil na IFIP (International Federation for Information Processing), ela passou a integrar o comitê técnico de comunicação de dados e esteve presente em diversos congressos no exterior, “Pude perceber como a mulher realmente tinha um lugar difícil em muitos países e dar graças à Deus por morar no Brasil, onde as coisas eram perceptivelmente diferentes.”.

Em certa ocasião, esteve em Bali e não era permitido que as mulheres entrassem nos templos de calça comprida, “Tive que comprar um sári e enrolar na cintura, para fazer de conta que eu tinha uma saia comprida, para poder entrar no templo.”, fala sorrindo, enquanto mostra a foto em frente ao templo ao ar livre.

Liane comenta que naquela época era difícil para a mulher viajar sozinha, normalmente estava com o grupo da IFIP e sentia-se segura, por vezes esteve sozinha e chegou a sentir uma pontinha de medo, mas sempre teve capacidade de sair de qualquer probleminha que por ventura tenha acontecido. “A gente tinha que ser mais, para ter o mesmo destaque, e tinha coisas que a gente tinha que abrir mão.”, conta Liane.

Atualmente, quando se fala em presença feminina, ela vive em duas áreas, com realidades completamente diferentes: no CINTED a maioria é composta por mulheres, o foco é à área da educação, já na computação, a maioria: homens. “Houve uma época em que a quantidade de mulheres nos cursos de computação cresceu, depois começou a encolher de novo. Atualmente tem poucas meninas no Pós Graduação. Na minha disciplina, Gerência de Redes,  vez por outra  aparece uma menina como aluna.”, ela comenta muito séria.

Liane acredita que essa diferença ainda é consequência da primeira infância, onde as meninas são formadas para serem bonitas, meigas, dóceis, enquanto os meninos, para serem ousados; gerando mulheres com certa dificuldade atuar como resolvedoras de problemas e para harmonizar vida pessoal e profissional, no caso de escolher profissões onde a maioria é visivelmente masculina.

“A profissão na área de redes, gerência de redes é basicamente uma profissão de troubleshooting, tu tens que resolver problemas o tempo todo e os problemas, sempre são inesperados e diferentes, então tu tens que estar preparado para isso. Não faz parte do imaginário feminino, ser uma resolvedora de problemas, andar de gatinhas em baixo de uma mesa procurando uma tomada… em toda modernidade eu ainda vejo um pouco disso, as mulheres tendo um pouco de medo de assumirem uma posição mais contundente, eu diria assim, profissionalmente, e isso faz com que elas sejam olhadas de lado…”, explica Liane.

“Isso é resultado de toda uma educação para ser protegida, ser mimada, ser dengosa, usar o choro como estratégia de conseguir o que quer; e o menino é preparado para quebrar o galho, resolver o problema, superar as dificuldades. Então, em algumas áreas da computação são mais teóricas, a gente percebe mais mulheres, que aptidão para o estudar, pensar, raciocínio, modelagem. Nas áreas que tem que resolver problemas, tem mais homens ainda do que mulheres, porque acho que ainda falta um tanto, para preparar as nossas meninas, para serem resolvedoras de problemas.”, completa Liane tranquila.

“Homens e mulheres deveriam ser iguais na TI, e não a mulher ser tratada como um papel especial, porque no momento que ela é especial, isso é ruim, ela tem que ser aceita como um profissional competente do mesmo jeito que o homem, sem que ela precise se vestir como homem, por exemplo e mudar seu aspecto.”, começa com seriedade.

“É claro que a lógica feminina, às vezes, tem algumas coisas que ajudam, no sentido daquela intuição, daquele jeitinho de procurar contornar os problemas e isso é importante; como no cargo de chefia, muitas mulheres têm uma habilidade ímpar, para lidar com as pessoas, para convencer, interagir, mobilizar a força de vontade.”, continua de forma gentil.

Liane percebe a diferença entre hoje e a época em que ela começou sua carreira, onde a mulher precisava ser uma guerreira muito intensa para poder avançar na área; um esforço, muitas vezes, doloroso para chegar a certo nível desejado. “Hoje não é tão intenso como era antigamente, mas por outro lado eu vejo agora que a disputa é entre os homens também, pois a competição aumentou.”, conclui sorrindo.

Competência, sorte ou “QI”?

“Eu acho que para ter sucesso é preciso ter QI no sentido mais tradicional, tem que ser bom, tem que ter uma boa cabeça, quociente intelectual, e isso é desenvolvido ao longo da vida.”, explica Liane.

Para ela, as experiências que a criança tem na primeira infância, são determinantes para a formação de sua inteligência; define como sorte nascer em uma casa onde os pais incentivam esse desenvolvimento: “Porque a gente teve a sorte de nascer neste ou naquele lar, então isso é muito determinante do sucesso da gente.”.

“É óbvio que crianças que não tiveram sorte nessa fase, mas que nasceram com um QI especial, acabam superando eventuais deficiências dessa primeira infância, e indo onde ninguém foi, como diziam na Star Trek, mas então isso é competência e QI para superar a falta de sorte inicial na vida.”, fala sorrindo.

“Depois há a fase estudantil, fase de formação, tem uma mistura de sorte e tenacidade; alguns estudos mostraram que os mais bem sucedidos profissionalmente, são as pessoas que foram os primeiros lugares, no seu colégio, e isso é mais importante do que o colégio de onde elas vieram.”, diz.

Para Liane, tenacidade é uma característica de quem constrói o futuro vencedor, ou, futura vencedora. Sorte pode ser o fato de estar no lugar certo no momento certo e estar preparado para aproveitar a oportunidade que é oferecida.

Liane relata sobre seu primeiro emprego na faculdade, ela cruzou com um colega na escada e ele disse: “Olha, estão precisando de professor no CPD por que tu não vais lá e te inscreve?”, é evidente que ele só disse isso porque conhecia sua competência, sabia que ela era trabalhadora, conhecia programação e estava preparada.

Sorte? O fato de os dois terem se encontrado. Competência, o fato de ela possuir a formação e competência necessária para concorrer e preencher a vaga.

Liane acredita que as indicações, em certos momentos, podem ajudar; quando pessoas conhecem o bom profissional e sabem de oportunidades que serão bem aproveitadas, isso é válido.

Ela narra sobre uma oportunidade que surgiu, ela aproveitou e esse fato, mudou completamente sua vida. Um curso de teleprocessamento que ela fez no Rio de Janeiro com Leonard Kleinrock, o homem que instalou o primeiro IMP na internet.

“Minha dissertação de mestrado era na implementação de um interpretador da linguagem APL, estava trabalhando pra construir o interpretador do APL e surgiu a oportunidade de fazer um curso no Rio de Janeiro, antiga SCI da PUC, esses cursos eram com pessoas que vinham de fora. Durante três dias eu assisti aquele curso de redes e disse: Meu Deus, é isso aí que eu quero.”, relata com emoção.

Ela voltou para Porto Alegre e foi direto falar com o coordenador de Pós Graduação: “Eu não quero mais fazer essa minha dissertação de APL não, quero ir pra redes, teleprocessamento (na época era assim que área era denominada).”, ele concordou e foi seu orientador formal, pois na época, não havia nenhum orientador no assunto; ela estava decidida a fazer sozinha se fosse necessário.

Liane começou a estudar, pesquisar, ia à Embratel perguntava, procurava normas, e do resultado deste trabalho, surgiu seu primeiro livro: Redes de Comunicação de Dados. “Sorte eu ter sido aluna do Leonard Kleinrock? Sim, muita pois aquele curso influenciou toda minha carreira.”, confessa.

Liane cita a teoria do caos para ilustrar o que aconteceu com ela: “Às vezes, o bater de asas de uma borboleta na Amazônia pode causar um furacão no Texas. A gente nunca sabe quando a asinha da borboleta está rufando e vai influenciar nossa vida de algum modo, e como vai influenciar, mas a gente tem que estar sensível, tem que estar perceptiva e aberta.”.

Feminismo X Machismo

“Sou feminista, no sentido de querer ajudar as mulheres a terem as mesmas oportunidades que eu tive, e outras melhores até. Machista, no sentido de que eu espero competência, dedicação, aquela pernada extra, às vezes, aquele tempinho extra que a gente precisa e não a atitude de: se são seis horas, sair correndo; isso me deixa um pouco estressada.”, admite.

Liane procura preparar sua filha para ser uma mulher vencedora “Preservar o aspecto feminino dela, mas também incentivar a investigar, a ser mais ousada.”, assim como estimula suas alunas de mestrado e suas colegas de trabalho, oferecendo as mesmas oportunidades que teve.

Preconceito, Remuneração Diferenciada e Assédio

Liane acredita que ainda existe preconceito, principalmente para cargos de chefia, “Muitas vezes, eu percebo um medo, um temor de que a mulher não vai ser capaz de exercer autoridade, por causa daquele ideal de feminino de que a mulher não pode ser muito mandona.”.

Ela percebe que muitos empregadores ainda pensam que o homem tem a obrigação de sustentar a casa, por isso existe a remuneração diferenciada em alguns casos: “Esquecem a quantidade de single mommies, mães solteiras, que hoje levam sua família sozinhas. Eu percebo que existe ainda, esse preconceito no mercado.”, expressa.

Já sofreu preconceito no início de sua carreira, estava apta à assumir um cargo de chefia, mas o selecionado foi um colega, que era mais antigo. “Eu era mais ativa, mais produtiva e acabei tendo que esperar alguns anos para poder ascender àquele cargo.”, lembra.

Assédio? Um caso muito curioso! Certa ocasião ela coordenava um congresso e tinha a incumbência de convidar palestrantes internacionais. Foi a um congresso internacional, procurou palestrantes que identificou como bons, e decidiu convidá-los. Um deles interpretou mal sua aproximação.

“Começou com aquela conversa que a gente logo identifica como início de uma cantada… e eu disse: não, meu interesse é puramente profissional, eu só quero saber se aceita o convite e ponto. Eu havia assistido a palestra dele, vi que tinha interesse para o congresso que estava coordenando, o palestrante era competente e só queria saber se tinha interesse e disponibilidade para vir ao Brasil no congresso. Botei-o no devido lugar e dali para adiante a convivência foi pacífica.”, conta.

Vida profissional X Vida Pessoal

Liane considera difícil conciliar a vida profissional com a pessoal, mas é questão de organização: “No meu caso, eu tive que me organizar, tem que ter um suporte: a família pra ajudar… Tive que montar essa infraestrutura para poder ser uma profissional intensa, senão não teria sido possível. ”.

Teve épocas que escolheu não ter o carro do ano para poder pagar duas empregadas, uma cuidava da casa, a outra, levava e buscava os filhos no colégio, balé, dentista, proporcionando a tranquilidade que Liane necessitava para atuar, sem essas preocupações, em suas reuniões e viagens.

“Eu fiz um compromisso da minha carreira, mas não queria abrir mão da minha vida familiar.”, Liane recebeu convites para trabalhar em Brasília, EUA e recusou após pesar prós e contras. “Eu fiz essa opção, ter o melhor dos dois mundos; de um lado eu saia, viajava, ia a congressos, mas eu tinha que ter aqui um suporte familiar muito sólido”, diz Liane.

“São opções que temos que fazer, quando queremos ter um pouquinho de cada um dos lados, pra mim é bom… e acho que isso, hoje, é ainda uma das crises existenciais do mundo feminino: como conseguir ter o melhor dos dois mundos, como ser uma vencedora.”, conclui com sabedoria.

Liane gosta de aventurar-se, mas com cautela, correr riscos controlados; fazer coisas inesperadas como, ir de avião até Chicago e depois, dirigir sozinha de um Estado a outro para ir a um congresso da Internet2 em Indianápolis; fazer um safári fotográfico na África; passear de camelo na Tunísia; andar de paragliding em Bali.

“Eu sempre gostei de fazer coisas assim, e por isso, procuro estimular na minha filha também a ter esta maneira de ser, para que ela desfrute dessas coisas sem se arriscar demais, sempre com cautela, não desenfreadamente. As mulheres precisam de um pouco de aventura também.”, fala entusiasmada.

Liane vê seu trabalho como uma diversão, sempre leva seu notebook em suas viagens, mesmo em férias, está sempre conectada, não se considera viciada em trabalho, pois para ela, o que faz é puro prazer: “Eu entro num aeroporto já procurando uma tomada, a bateria sempre é um problema, em qualquer lugar, vou num congresso, numa reunião, entro procurando uma tomada… não me admito sentada num lugar sem fazer nada…”, confessa alegre.

Ela comenta que sua Mãe, sentava e ficava fazendo crochê em frente à televisão, isso era o seu prazer, sua diversão, para ela, “movida à eletricidade”, o prazer está na rede, seja através do note ou do palm.

Costuma ler para saber das novidades que estão lançando no mercado, o que está sendo publicado, para ela isso é lazer, em sua profissão, é considerado trabalho, porque é isso que um professor, um pesquisador faz.

“Quando eu descubro uma coisa nova… ah… aquilo é uma dose de serotonina que se espalha no corpo e a sensação de ah eu consegui isso… deixa em estado de graça. Então isso não pode ser considerado trabalho.”, expressa com euforia.

Liane, ama o que faz, é completamente realizada, “Eu poderia estar aposentada até, mas não tenho a menor intenção de me afastar, porque hoje, graças à Deus, eu estou trabalhando num lugar, numa posição em que eu posso fazer aquilo que me dá gratificação, eu dou aula sobre coisas que eu gosto muito…”, seus olhos brilham quando fala no que prepara para seus alunos.

Adora ler para relaxar, tem a coleção completa de Agatha Christie e Jane Austen, livros e filmes. Teve uma época que gostava muito de Isaac Asimov também, a série clássica Eu Robô; o que seria esperado.

Sua paixão é viajar, conhecer e rever lugares que conheceu em filmes, “Entrar no The Plaza em Nova York, que tinha sido cenário de um vídeo recém assistido, me deu uma alegria muito grande. E mais divertido foi ver, quando sai, um Rolls-Royce estacionado na porta, na frente da escadaria como se estivesse me esperando. Brinquei comigo mesmo de faz de conta, de me  sentir uma princesa que iria entrar naquele carro, embora o carro que eu tinha alugado obviamente não fosse aquele.”, conta alegre.

“Quando pequena, vivia no interior, eu via os aviões passando no céu, e aquilo pra mim era uma coisa tão remota como ir à Lua… O dia que andei pela primeira vez, eu fiquei muito feliz, e ainda hoje eu me sinto assim, na hora que estou entrando no avião: surge aquela sensação de opa é novidade que vai entrar na minha vida.”, fala emocionada.

Liane aproveita cada oportunidade para ver coisas inesperadas, em La Plata, na Argentina, visitou um Museu de Arqueologia, onde viu um fêmur de dinossauro de quase 2 metros de altura; em Porto, em Portugal, visitou a casa do Infante D. Henrique, construída em 1300, “Ver de perto coisas tão antigas me dá uma fissura.”, diz ela extasiada.

Em Braga, Portugal, visitou a Catedral da Sé e conta impressionada: “Eles tem uns caixões de ossos de todos os bispos, ai tu olha uma legenda e está escrito que o cara morreu em 45… quarenta e cinco… ele foi ordenado pelo Apostolo Santiago… e está ali a três metros de distância de ti, sabe, os restos de uma pessoa que teve contato direto com outra pessoa que teve contato direto com Jesus. Isso me impressiona pois quando a gente lê sobre fatos históricos eles parecem tão distantes, quase lendas ou ficção.”.

Coisas que só existiam no imaginário, em lendas, de repente podem ser vistas, e quase tocadas, são uma fonte de satisfação para Liane: “Chegar em um museu, ver uma cruzinha singela e descobrir, que foi a cruz que foi usada na primeira missa no Brasil, é muito interessante.”.

Um de seus hobbies é genealogia, ela faz parte do comitê da família Rockenbach, é a webmaster, mantém o banco de dados e está “Caçando informações. A história conhecida da família começa em 1640. Cada um que vai à Alemanha, ou em outro lugar, procura um pedacinho da história.”, já possui cópia de certidões do tataravô, que emigrou da Alemanha em 1828.

Ela se emociona ao abrir um livro de 1863, encontrado na Biblioteca Central da UFRGS, e ler sobre como era o contexto no século 19  quando seus antepassados viviam no interior do Rio Grande do Sul. Busca saber suas histórias, e o comitê da família está escrevendo um livro, é uma forma muito bonita de homenagear seus ancestrais, sua família.

Realizações e Desafios

Realizou muitos sonhos em sua vida, “Começou com andar de avião… conhecer Empire State Building… senti vontade de abraçar; conhecer lugares magníficos e belezas naturais pelo mundo, Foz do Iguaçu… ver um glaciar, no sul do Chile.”, cita cada lugar que conheceu como se os estivesse visualizando.

Um sonho que ainda não realizou é conhecer a Cascata do Anjo na Venezuela e outro, fazer uma excursão pelo Gran Canyon, nos EUA. “Conhecer esses lugares maravilhosos são alguns de meus sonhos que vou ir realizando, pouco a pouco.”.

Para Liane, manter-se atualizada hoje, no mundo em que a produção de informação cresce num ritmo exponencial, é o maior desafio do profissional de TI. “Graças à Deus eu tenho os meus alunos, curiosos também que ajudam a tomar ciência das novidades. Às vezes de maneira informal, se ouve falar em coisas que nunca tinha ouvido antes, e isso acontece frequentemente.”.

“É comum se deparar com algo que é totalmente novo, às vezes é só uma palavra nova para um conceito que a gente já conhece, tem sempre novidades. A gente não pode sentar sobre os louros jamais.”, fala com sabedoria.

ITIL, por exemplo, era uma coisa que até alguns anos atrás não se falava, o gerenciamento de rede era calcado nos FCAPS, aquelas cinco categorias de gerenciamento propostas pela ISO/OSI; e agora a gente já percebe, pelos estudos de mercado, que está havendo uma migração, ainda não zerou os FCAPS, mas o gerenciamento de TI de modo geral e o da rede estão sendo, integrados, calcados no ITIL. Isso constitui uma tendência crescente, observável.”, considera.

Liane lembra que não podemos esquecer o passado. “Às vezes, a gente redescobre o passado, outra semana estava escrevendo um trabalho artigos que estava lendo falavam em linguagens de autoria para material educacional, da década de 60, citando a Pilot, uma linguagem que usei no meu Color Computer para fazer programinhas educacionais para meu filho, na década de 80. Pesquisei um pouco e descobri que a Pilot virou padrão ISO, em 1991.”, conta que ficou enternecida de ver a linguagem que gostou tanto de trabalhar no passado, havia se tornado um padrão internacional.

A Internet permite descobrir estas raridades, “Às vezes me sinto como Indiana Jones, fazendo arqueologia na internet.”, confessa sorridente.

Planos e Perspectivas para o Futuro

Liane só quer ter força e saúde para poder continuar como está: “Tendo a oportunidade de descobrir coisas novas, perseguir novas idéias, testar novos sistemas, poder viajar, ir a congressos, apresentar, ouvir o que os colegas estão fazendo. Eu tenho essa curiosidade constante, e continuar saciando a minha curiosidade contribuindo para fazer crescer esse acervo do conhecimento geral, é minha perspectiva.”.

Outro desejo é poder voltar à Alemanha, ir à Universidade de Frankfurt procurar um livro que ela descobriu na internet, escrito por Abraham Rockenbach em 1601, “Ele era professor da Universidade de Frankfurt e escreveu um livro sobre teoria dos cometas, que é citado ocasionalmente em artigos, mas que nunca foi encontrado. É um livro escrito por um Rockenbach em 1601.”, diz com entusiasmo juvenil.

Ela procura, fala com bibliotecários e planeja, na próxima viagem à Europa, ir à Frankfurt “caçar esse livro”, se expressa com o entusiasmo e fascinação característicos do personagem criado por Steven Spielberg e George Lucas, vivido por Harrison Ford. Liane é a nossa Indiana Jones da TI.

Mensagem para os leitores

Liane Tarouco nos deixa uma mensagem que, absolutamente, é uma lição de vida:

“Temos que procurar o meio termo em tudo na vida, alguns dizem que o meio termo é mediocridade, eu não acho. Acho que não podemos ir a extremos, em aspecto nenhum da nossa vida. Cultivar a sua vida de forma completa, tanto a parte pessoal, relacionamentos, amigos, família, como a parte profissional.

A gente tem que se desdobrar e buscar a excelência nos dois, porque a excelência não acontece por sorte, por acaso ou porque uma fada madrinha agitou a varinha, ela é buscada.

Buscada com persistência, tenacidade e com decisão. As coisas boas da vida acontecem, porque vamos atrás delas. É preciso estar no lugar e na hora certa para que elas aconteçam, a gente se colocar ali.

Fazer acontecer é importante. Façam acontecer, não esperem que o mundo aconteça ao seu redor.”
Com a sabedoria de um arqueologista nato, ela dá a dica; quem quiser aproveitar, só tem a ganhar.

fonte: baguete