Há diversos tipos de extensão curricular, mas, antes de matricular-se, profissional deve avaliar histórico, formação e ponderar objetivos

Retração financeira, empregos por um fio e um cenário marcado pela instabilidade. A época é de vacas magras, porém, os especialistas aconselham que os profissionais devem turbinar seus currículos para mostrar diferenciação dentro e fora da empresa. Mas quais os cursos que podem dourar o histórico do executivo e até significar melhores salários?  Para Margot Nick, gerente da consultoria Kienbaum, especializada em recrutamento e seleção de altos executivos e média gerência, os cursos de gerenciamento de projetos e diplomas nas áreas de Itil e data mining estão na mira dos empregadores. “São temas que valorizam qualquer currículo”, afirma.

De acordo com o gerente de treinamento e desenvolvimento da CPM Braxis, Nivaldo Dutra, as muitas opções das escolas de treinamento devem ser pinçadas a partir da área de atuação e do perfil do profissional. “Hoje, Itil, Cobit e temas relacionados à governança de TI são alternativas ‘quentes” para quem encara a TI como prestadora de serviços”, recomenda. “Mas as especializações em gestão de projetos são sempre bem-vindas, além de perfis funcionais em ERP.”

Já na área de desenvolvimento de aplicativos, o especialista confirma o foco em Java.Net e nos mundos Oracle e Microsoft. Segundo Ana Claudia Plihal, gerente de desenvolvimento de parceiros da Microsoft Brasil, o Windows Server é o curso mais vendido dentro do universo da MS, seguidos do SQL Server, banco de dados, programação e Visual Studio. “Há vagas em aberto no mercado para o pessoal de desenvolvimento e as empresas não conseguem encontrar executivos especializados para preenchê-las.” No ano passado, cerca de 5 mil profissionais foram certificados em cursos da Microsoft e a expectativa é manter este número em 2009.

Na Quint do Brasil, empresa de consultoria e treinamento gerencial, o curso mais procurado é o de Itil. “Há uma demanda por profissionais certificados”, confirma Ulysses Pacheco, country manager da companhia, que oferece 30 cursos nas áreas de Itil, Cobit, ISO 20 mil e outsourcing. Para se ter uma ideia, mais de mil pessoas se matricularam nos cursos de Itil da Quint em 2008. “O Itil Foundation já pode ser considerado básico e os cursos Practitioners e Master são encarados como uma evolução natural da carreira.”

O executivo lembra que a procura também aumentou nos treinamentos em Cobit por conta das exigências de implantação de governança nas empresas. “A tendência das certificações em Cobit é de crescimento, principalmente nos workshops de implantação.” Na hora de pesar custo e benefício, Pacheco lembra que as certificações do tipo master em outsourcing apresentam grandes atrativos – é um curso de apenas duas semanas – e os profissionais diplomados na área ainda são raros. “São técnicos que continuam disputados no mercado, mesmo em tempos de recessão.”

Outras especialidades

Para Margot, da Kienbaum, além de cursos de gerenciamento de projetos, não se deve perder a oportunidade de estudar e-business, business intelligence (BI) e balance scorecard (BSC) – áreas sempre requisitadas nas empresas e que ainda enfeitam a folha corrida do profissional. “Na área de TI, os treinamentos são fundamentais para atender às constantes atualizações do mercado.” A recrutadora também aconselha certificados nas áreas de Itil, ERP e data mining.

Dutra, da CPM Braxis, lembra que além dos cursos específicos, é necessário desenvolver as “soft skills”: habilidades de relacionamento, comunicação e gestão de pessoas. “Seja qual for a área de atuação, é importante obter profundidade em alguma expertise e ter, ao mesmo tempo, uma visão generalista.”

A mesma opinião é partilhada por Margot. “O profissional de TI deve buscar cursos que não sejam somente técnicos, como gestão de RH e estratégia. As companhias querem profissionais mais holísticos, que saibam lidar com outros setores relacionados à TI.”

De acordo com Alessandro Regente, diretor da consultoria Altran CIS-Consulting and Information Services, os profissionais precisam se ater a conceitos e metodologias que as empresas vejam como valor agregado. “Para isso, além da tecnologia em si, o funcionário precisa entender de negócios”, avisa. “O conhecimento específico é importante, mas saber lidar com situações novas do mercado é uma característica valorizada pelos chefes.”

A orientação é seguida à risca por Luiz Ferianzzi, 56 anos, analista de desenvolvimento sênior da Elumini. Com mais de 15 anos de experiência, o engenheiro eletrônico coleciona 1,3 mil horas de cursos de complementação e atualização. Atualmente, ele faz um curso de gestor de processo pela Association of Business Process Management Professionals (ABPMP) e um treinamento em arquitetura orientada a serviços  (SOA). “Não há como trabalhar sem adquirir novos conceitos e abandonar o que você aprendeu no passado”, diz. Em 2009, de olho na reciclagem, o analista pretende fazer outra bateria de cusos sobre gestão de projetos. “Investir em treinamento é uma maneira de estar ‘vivo” no mercado e manter uma boa saúde profissional.”

O momento para estudar

Para Dutra, da CPM Braxis, Ferianzzi sabe o que está falando: o aperfeiçoamento é constante e não pode ser interrompido em nenhum momento da carreira. “O profissional de TI é submetido a grandes desafios. Para se habilitar a uma nova oportunidade na empresa, precisa estar adiante dos demais.” Segundo Ana Cláudia, da Microsoft, é comum um profissional com muitos anos de carreira ter um melhor desempenho em provas de certificação por conta da experiência da vida profissional. “Mas isto depende do histórico de cada um.”

Com 25 anos de carreira, o gerente de negócios da Stefanini IT Solutions, Luiz Edmundo Machado, 48 anos, acumulou um histórico de tirar o fôlego. “Graças aos cursos que fiz, como o de formação de analista de sistema mainframe/IBM, pude iniciar minha carreira recém-formado”, lembra. “Nestes últimos 20 anos, o País passou por várias crises e muitos profissionais de formação reduzida tiveram problemas para achar emprego. Consegui me recolocar, sempre numa posição melhor, por conta dos treinamentos.”

Recentemente, em sua última mudança profissional, Machado abraçou um trabalho de gerenciamento de projetos graças a cursos de metodologias como Project e UML. No ano passado, participou de três treinamentos e, em 2009, pretende fazer mais dois. “O volume de cursos será menor, mas as baterias serão de maior duração para a certificação PMP e Itil Foundations V3.”

Para decidir o melhor caminho antes da matrícula, os especialistas recomendam que se busque instituições de ensino respeitadas e aquelas que sejam referência no mercado. “Isso vai agregar mais valor ao currículo”, diz Dutra, da CPM Braxis. Ana Cláudia, da Microsoft, aponta que o profissional deve ter em mente a área que deseja atuar, de infraestrutura ou desenvolvimento, e respeitar o seu histórico. “O executivo de infraestrutura segue normas e processos, enquanto o de desenvolvimento tem de ser tão criativo como um publicitário ou um pintor”, compara. “Ele não segue processos, mas ‘cria” em cima de uma plataforma.” O ideal para quem deseja estudar para conquistar uma certificação da Microsoft é fazer treinamentos nos parceiros oficiais da marca, chamados de Certified Partner Learning Solutions (CPLS).

Segundo Margot, da Kienbaum, para não haver erro nas escolhas, é preciso que o profissional avalie primeiro a efetiva utilização da ferramenta ou do conhecimento do curso na empresa onde trabalha ou deseja atuar. “Especializações diretamente relacionadas ao campo de atuação do profissional são sempre necessárias”, explica. “Mas é preciso investir em treinamentos que possam ser aplicados no dia-a-dia. Dessa forma, o profissional faz um bom investimento na carreira e ainda passa a ser mais valorizado.”

Para Pacheco, da Quint, há baterias de aperfeiçoamento para vários níveis de conhecimento – mas não há fórmulas prontas de sucesso. “Claro que para acompanhar um Master ou Practitioner é exigida uma certa experiência do profissional, com mais de cinco anos de mercado”, explica. “Já os cursos de Fundamentos são para iniciantes na carreira, antes dos cinco anos de profissão.”

É o caso de Júlio Gomy, 27 anos, engenheiro de sistemas da 3Com, há três anos na área de TI. “Estou estudando para concluir o programa de certificações da companhia”, diz. Desde a admissão na empresa, em 2007, Gomy já participou de diversas aulas – todas com ênfase nas soluções da companhia. “Para garantir um desempenho e uma atuação superior é preciso conhecer intimamente as tecnologias da empresa.”

Além dos treinamentos, o engenheiro procura se manter atualizado. A receita combina o estudo de novas ferramentas, leitura especializada, pesquisas na internet e contato com profissionais da área.

Mas não basta apenas colecionar diplomas nas melhores escolas. A disponibilidade do profissional para o curso tem de ser pesada. “Além da carga horária, deve-se levar em conta a importância das atividades extra classe, como leituras, trabalhos e dinâmicas, que demandam tempo”, afirma Dutra, da CPM Braxis.

Ulysses Pacheco, da Quint, lembra que a crise atual também pode ser vista como um divisor de águas. “Investir na carreira agora pode ser decisivo para tornar o profissional ainda mais valioso no mercado.” Para Dutra, não há uma solução única para acelerar a carreira e levantar o salário. “O importante é a consistência da vida executiva, construída a partir da combinação de cursos e vivências profissionais.” Machado, da Stefanini, acredita que o investimento em conhecimento é o melhor que existe, principalmente em momentos de crise. “A somatória dos cursos que fiz é o resultado do que sou hoje, profissionalmente. Sem eles, não teria entrado na carreira de TI”, confessa. E valeu a pena passar tantas horas dentro de salas de aula? “Repetiria de novo todos os treinamentos, talvez até antes do momento em que foram concluídos e mais alguns que deixei de fazer”, conclui.

fonte: ITweb